O 15.º Festival Internacional de Documentários movimentou a semana em São Paulo. Os filmes foram exibidos na Cinamateca, CCBB, Espaço Unibanco, Reserva Cultural, Cinusp e Cinemark Eldorado.
Ocorreu uma retrospectiva de Alain Cavalier. Eu vi o filme "Esta secretaria eletrônica não grava recados", um filme quase mudo e de alguém fechando portas para o mundo, deforma bem plástica...pintando de preto exteriores e janelas de um apartamento.
Eu amei o filme "Os pais da Praça de Maio". Joaquin Daglio teve a magnífica ideia de realizar entrevistas, expedições e um fabuloso encontro do grupo. Eram dez entrevistados e falavam sobre os seus filhos e filhas desaparecidos, as consequências de serem obrigados ao silêncio e a oportunidade de, simbolicamente, enterrar seus filhos insepultos, através de narrativas. Comovente, encantador e mobilizador...Confesso que andei pela Paulista e olhando os idosos que eu cruzei e vendo neles, os pais da Praça de Maio. As histórias de vida que emergem no filme são singulares e tão semelhantes. Lembrei que também entrevistei as dramistas de Guriú isodamente e em grupo. Os depoimentos individuais ganham espaço para um compartilhamento grupal. Quando se olha ao redor, foi produzido um grupo novo com ligação mantida no falar sobre suas histórias de vida. Falar, falar, falar...este santo remédio inventado por Freud.
Ainda assisti o interessante "Sobre Rios e Córregos", que inspira saudade dos rios que passavam por baixo do Vale do Anhangabaú. Entendendo o passado é possível entender o caos urbano paulistano quando as águas voltam ou teimam em insistir em resgatar seu lugar original.
E por falar em águas, Bodanzki, amei o "No meio do Rio, Entre as Árvores", repleto de palavras dos riberinhos da amazônia, de suas cores, de seus focos. A ideia muito sensacional da equipe foi oferecer oficinas para algumas comunidades da amazônia e colocar uma filmadora disponível para cenas cotidianas das comunidades que lutam para sobreviver ao descaso de quase tudo e todos. Encantador!!!
domingo, 18 de abril de 2010
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
AS MARIPOSAS, INÊS, IRACEMA, GUIOMAR, MATHILDE E TANTAS CRIAÇÕES DO CENTENÁRIO ADONIRAN BARBOSA
Adoniran Barbosa é um centenário. Interessante saber que ele atravessou o século XX e deu para o Brasil a possibilidade de descobrir uma cidade não apenas sinônimo de pressa, trabalho, trânsito, poluição.
A São Paulo cantada em verso e prosa é uma sucessão fantástica de narrações de mulheres que dizem que vão comprar o pavio pru lampião e demora muita...anoiteceu, ele foi pra rua como louco, procurou na central, no hospital e no xadrez, andou a cidade toda e nada...e no chão, pertinho do fogão, encontra um bilhetinho de Inês: “pode apagar o fogão, Manê, que eu não volto mais!”. Ou Alguém que vem pedir abrigo e conta que o seu barraco pegou fogo. E conta a infortunada história. Ou ainda Isabel chorando sem parar e vendo o barraco queimar, com dor e sofrer. Justo aquele barraco onde foram tão felizes!
Quem poderia falar melhor e nos fazer percorrer as ruas de Sampa, entrar nas malocas, pegar o último trem, aquele das onze. Quem nos esclareceria melhor o doce encanto da malandragem paulistana e o samba paulista tão associado a essa figura que respirava dramaturgia para encenar no cinema, na rádio, na televisão e na hora de compor as suas preciosidades.
São os prédios altos que demoliram as malocas dos Jocas, Matogrossos e outros e que habitavam Brás, Bixiga e outras paradas.
É um repúdio sonoro às atrocidades sociais contemporâneas de Adoniran e que vemos na megametrôpolis, quando chove ou quando chegam para limpar os espaços públicos, transmutados em casa para os joças, matogrossos atuais. Ali onde um colchão velho é um quarto de dormir e jatos de água de reuso são jogados nas calçadas. E Adoniran dizia: “A minha maloca ofereço aos vagabundos que não tem onde dormir”.
É lúdico, é crítica social, é genial, é imortal. Este jeito de viver e dizer “olha nois aqui outra veiz”. E se são convidados por Arnesto para uma festa que não aconteceu, dizem que não vão outra vez.
E aquele samba no Bixiga no domingo e com baita de uma briga. E eles estranhos no lugar. E eles foram não para brigar. Afinal foram lá para comer. E Sargento falar que a situação está grave e ia chamar ambulância e que os mais pior vão pras clinicas.
Essa cidade do século XX cuidadosamente registrada por Adoniran nos ficou de legado e se propagou nas comunidades das escolas de samba, nos sambistas, nos rappper’s e no movimento de poesia da Cooperifa, em que poetas contemporâneos e reunidos em comunidades na periferia paulistana recitam suas dores,cores e flores.
A São Paulo cantada em verso e prosa é uma sucessão fantástica de narrações de mulheres que dizem que vão comprar o pavio pru lampião e demora muita...anoiteceu, ele foi pra rua como louco, procurou na central, no hospital e no xadrez, andou a cidade toda e nada...e no chão, pertinho do fogão, encontra um bilhetinho de Inês: “pode apagar o fogão, Manê, que eu não volto mais!”. Ou Alguém que vem pedir abrigo e conta que o seu barraco pegou fogo. E conta a infortunada história. Ou ainda Isabel chorando sem parar e vendo o barraco queimar, com dor e sofrer. Justo aquele barraco onde foram tão felizes!
Quem poderia falar melhor e nos fazer percorrer as ruas de Sampa, entrar nas malocas, pegar o último trem, aquele das onze. Quem nos esclareceria melhor o doce encanto da malandragem paulistana e o samba paulista tão associado a essa figura que respirava dramaturgia para encenar no cinema, na rádio, na televisão e na hora de compor as suas preciosidades.
São os prédios altos que demoliram as malocas dos Jocas, Matogrossos e outros e que habitavam Brás, Bixiga e outras paradas.
É um repúdio sonoro às atrocidades sociais contemporâneas de Adoniran e que vemos na megametrôpolis, quando chove ou quando chegam para limpar os espaços públicos, transmutados em casa para os joças, matogrossos atuais. Ali onde um colchão velho é um quarto de dormir e jatos de água de reuso são jogados nas calçadas. E Adoniran dizia: “A minha maloca ofereço aos vagabundos que não tem onde dormir”.
É lúdico, é crítica social, é genial, é imortal. Este jeito de viver e dizer “olha nois aqui outra veiz”. E se são convidados por Arnesto para uma festa que não aconteceu, dizem que não vão outra vez.
E aquele samba no Bixiga no domingo e com baita de uma briga. E eles estranhos no lugar. E eles foram não para brigar. Afinal foram lá para comer. E Sargento falar que a situação está grave e ia chamar ambulância e que os mais pior vão pras clinicas.
Essa cidade do século XX cuidadosamente registrada por Adoniran nos ficou de legado e se propagou nas comunidades das escolas de samba, nos sambistas, nos rappper’s e no movimento de poesia da Cooperifa, em que poetas contemporâneos e reunidos em comunidades na periferia paulistana recitam suas dores,cores e flores.
sábado, 19 de dezembro de 2009
Recital de Órgão no Mosteiro de São Bento
Aconteceu em São Paulo, no Mosteiro de São Bento, no dia 17 de dezembro um Recital de Órgão. O programa contava com preciosidades compostas por Soler, Couperin, Bach, Messiaen, Dupré e Mulet. Destaco a presença vibrante de José Luis Aquino.
Este exemplar Organicista brasileiro e paulistano é organicista titular do mosteiro, Prof.º Dr.º da ECA/USP e realiza recitais pelo mundo a fora: Portugal, França, Alemanha, Israel, Espanha, Holanda, Itália, México, Suíça, Polônia e outros países.
José Luis Aquino tocou a Toccata e Fuga em ré menor BWV 565. Um momento sublime e coletivamente festejado com fortes palmas do público. A música de Bach é uma explosão que leva ao encontro de uma inominável sensação de que a música e mais que a vida.
O Mosteiro de São Bento possui um órgão instalado em 1954, fabricado na Alemanha. Possui 77 registros reais, 4 teclados manuais e pedaleira, com cerca de 6000 tubos. É assustador ouvir Bach com as possibilidades que este instrumento proporciona e tão maravilhosamente conduzido por Aquino.
Ser exímio na execução de um instrumento e viver em uma cidade, em uma época e contar com a existência de tão raro instrumento musical é uma dádiva muito bem aproveitada por Aquino. Há também outra valiosa companhia: Os Monges e seus cantares deslumbrantes. Os Monges Beneditinos do Mosteiro de São Bento acompanharam as Antífonas para o tempo de Natal Op. 48, de Dupré (1886-1971). Vozes virtuosíssimas e em singular afinação.
Sair deste encantador encontro com a suavidade do viver e voltar para o lado urgente da vida, descer as escadas que conduzem as catracas do metrô, ouvir as vozes dos demais passageiros...carregando na alma a pérola dos sons.
Este exemplar Organicista brasileiro e paulistano é organicista titular do mosteiro, Prof.º Dr.º da ECA/USP e realiza recitais pelo mundo a fora: Portugal, França, Alemanha, Israel, Espanha, Holanda, Itália, México, Suíça, Polônia e outros países.
José Luis Aquino tocou a Toccata e Fuga em ré menor BWV 565. Um momento sublime e coletivamente festejado com fortes palmas do público. A música de Bach é uma explosão que leva ao encontro de uma inominável sensação de que a música e mais que a vida.
O Mosteiro de São Bento possui um órgão instalado em 1954, fabricado na Alemanha. Possui 77 registros reais, 4 teclados manuais e pedaleira, com cerca de 6000 tubos. É assustador ouvir Bach com as possibilidades que este instrumento proporciona e tão maravilhosamente conduzido por Aquino.
Ser exímio na execução de um instrumento e viver em uma cidade, em uma época e contar com a existência de tão raro instrumento musical é uma dádiva muito bem aproveitada por Aquino. Há também outra valiosa companhia: Os Monges e seus cantares deslumbrantes. Os Monges Beneditinos do Mosteiro de São Bento acompanharam as Antífonas para o tempo de Natal Op. 48, de Dupré (1886-1971). Vozes virtuosíssimas e em singular afinação.
Sair deste encantador encontro com a suavidade do viver e voltar para o lado urgente da vida, descer as escadas que conduzem as catracas do metrô, ouvir as vozes dos demais passageiros...carregando na alma a pérola dos sons.
domingo, 22 de novembro de 2009
Villa-Lobos para sempre...para hoje...para sempre
Essa foi a semana comemorativa dos 50 anos de morte de Villa-Lobos. Morto? Viva o vivo! A cidade de São Paulo viveu fortemente essa comemoração vibrante. Aconteceu no Masp um Seminário Internacional,organizado pela ECA/USP. No Concerto 4, envolto na audição das Bachianas n.º 5, executada por o Quinteto Villa-Lobos, a lembrança das aulas de canto orfeônico nas escolas foi orquestrada por Antonio Carrasqueira.
Onde foi parar a preocupação, contemporânea à Villa-Lobos, de oferecer uma educação musical de qualidade nas escolas públicas. Isso acabou junto com os trenzinhos que inspiraram o compositor? Para além do imediatismo de querer novos músicos, ensinar música é salutar a formação de todas as crianças.
Pensando nisso foi interessante ver o espetáculo Villa das Crianças. Uma aula encantadora de música para crianças e que aconteceu nesta manhã no Auditório da FIESP. O tremzinho apitou, as canções folclóricas foram cantadas por senhoras, mães e crianças e as invenções do maestro Villa-Lobos inspiradas em cantigas de rodas foram entoadas. Sonhei que essas aulas sonoras ecoassem pelos 4 cantos do país. Será possível isso outra vez? Será possível recuperar, dinamizar, modernizar, cibernetizar a magia das aulas de canto orfeônico? Isso um dia voltará a interessar aos fazedores de políticas educacionais?
Encerrando ontem o Seminário Internacional Villa-Lobos, a OSUSP encantou com um arranjo inovador para “A Menina das Nuvens”. Quem ensinou ao Maestro Roberto Duarte este deleite com a música, na infância dele? Quem proporcionou estes primeiros prazeres musicais? Quem o fez inventor de arranjos inéditos?
Precisamos musicalizar as aulas, as salas de aulas, os professores e consequentemente as crianças.
Onde foi parar a preocupação, contemporânea à Villa-Lobos, de oferecer uma educação musical de qualidade nas escolas públicas. Isso acabou junto com os trenzinhos que inspiraram o compositor? Para além do imediatismo de querer novos músicos, ensinar música é salutar a formação de todas as crianças.
Pensando nisso foi interessante ver o espetáculo Villa das Crianças. Uma aula encantadora de música para crianças e que aconteceu nesta manhã no Auditório da FIESP. O tremzinho apitou, as canções folclóricas foram cantadas por senhoras, mães e crianças e as invenções do maestro Villa-Lobos inspiradas em cantigas de rodas foram entoadas. Sonhei que essas aulas sonoras ecoassem pelos 4 cantos do país. Será possível isso outra vez? Será possível recuperar, dinamizar, modernizar, cibernetizar a magia das aulas de canto orfeônico? Isso um dia voltará a interessar aos fazedores de políticas educacionais?
Encerrando ontem o Seminário Internacional Villa-Lobos, a OSUSP encantou com um arranjo inovador para “A Menina das Nuvens”. Quem ensinou ao Maestro Roberto Duarte este deleite com a música, na infância dele? Quem proporcionou estes primeiros prazeres musicais? Quem o fez inventor de arranjos inéditos?
Precisamos musicalizar as aulas, as salas de aulas, os professores e consequentemente as crianças.
domingo, 15 de novembro de 2009
Atlânticos...não suporto mais...que maravilha, Manuel Pessôa
Atlânticos...não suporto mais...que maravilha, Manuel Pessôa
Neste dia republicano, 15 de novembro, o SESI Paulista ofereceu ao paulistano um vibrante espetáculo: Atlânticos com Manuel Pessôa e tanto mar, tanto mar...
Muito mar, muito mar e muito amar...e a consequência seguinte do muito amar...o partir...partir...e o resto do tempo que leva para entender as partidas.
O Pianista Manuel Pessôa dividiu o palco com o artista multimídia Tomaz Kloetzel. Pessôa tocava Bach ou Villa-Lobos e umas mulheres apaixonadas e apunhaladas pelo tanto amar iam tecendo seus bordados, tanto mar e tanto amar...sons de mar, sons de flauta, sons do piano.
Ouvi uma senhora da primeira fila perguntar para vizinha de fileira, baixinho: Você conhece essa história?
Eu respondo: todos nós somos versos de Camões...amamos, somos amados, fomos amados, amamos. Tanto mar, tudo tão oceânico quanto estes dois corajosos: Pessôa e Kloetzel.
Adorável programa para um domingo com um pouquinho de sol!
Forma de desabrochar os mares internos, com piano, com pianista e com os recursos multíplices.
Neste dia republicano, 15 de novembro, o SESI Paulista ofereceu ao paulistano um vibrante espetáculo: Atlânticos com Manuel Pessôa e tanto mar, tanto mar...
Muito mar, muito mar e muito amar...e a consequência seguinte do muito amar...o partir...partir...e o resto do tempo que leva para entender as partidas.
O Pianista Manuel Pessôa dividiu o palco com o artista multimídia Tomaz Kloetzel. Pessôa tocava Bach ou Villa-Lobos e umas mulheres apaixonadas e apunhaladas pelo tanto amar iam tecendo seus bordados, tanto mar e tanto amar...sons de mar, sons de flauta, sons do piano.
Ouvi uma senhora da primeira fila perguntar para vizinha de fileira, baixinho: Você conhece essa história?
Eu respondo: todos nós somos versos de Camões...amamos, somos amados, fomos amados, amamos. Tanto mar, tudo tão oceânico quanto estes dois corajosos: Pessôa e Kloetzel.
Adorável programa para um domingo com um pouquinho de sol!
Forma de desabrochar os mares internos, com piano, com pianista e com os recursos multíplices.
domingo, 8 de novembro de 2009
Aplaudindo com os pés...sentindo com o coração
O grupo Cantilena Ensemble fez uma apresentação no dia 07 de novembro na Catedral da Sé. O espetáculo faz parte das programações da 3.ª Semana Ticket Cultura e Esporte: Você é a estrela desse espetáculo. No programa apresentado pelo Grupo Cantillena Ensemble: Bach.Mozart, Elgar e Piazolla.
Fiquei encantada com uma senhora que vibrava com a apresentação e aplaudia com os pés, fazendo um ritmo engraçado e que representava o encantamento dela com aquele inusitado encontro. Nada indicava que circulasse pelas salas que apresentam música erudita na cidade. estava era mesmo encantada com os sons dos violinos, dos cellos.
Isso é interessante para significar um certo lugar comum que repete que os que não conhecem música erudita não gostam de música erudita. Falta música erudita nas escolas, nas praças, nas ruas, nas estações de trem na hora de máxima movimentação.
Possível também de aplaudir com mãos, pés e coração foi a apresentação muito contemporânea de Silvio Ferraz. O projeto se chama Fina Escuta e aconteceu no SESC Paulista. Impressionante as possibilidades de piano, poesia e tecnologia digital podem juntos. Isso sob a coordenação do próprio compositor que confessou ouvir Bach e muito mais do que suas interessantes e inovadoras composições. Sinos badalando nas nossas cabeças, uma pianista vibrante interpretando uam música instingante e poemas que faziam ecos na alma, na sala. Não custa nada pedir...música erudita para todos...precisamos aplaudir com pés, mãos e com a alma.
Fiquei encantada com uma senhora que vibrava com a apresentação e aplaudia com os pés, fazendo um ritmo engraçado e que representava o encantamento dela com aquele inusitado encontro. Nada indicava que circulasse pelas salas que apresentam música erudita na cidade. estava era mesmo encantada com os sons dos violinos, dos cellos.
Isso é interessante para significar um certo lugar comum que repete que os que não conhecem música erudita não gostam de música erudita. Falta música erudita nas escolas, nas praças, nas ruas, nas estações de trem na hora de máxima movimentação.
Possível também de aplaudir com mãos, pés e coração foi a apresentação muito contemporânea de Silvio Ferraz. O projeto se chama Fina Escuta e aconteceu no SESC Paulista. Impressionante as possibilidades de piano, poesia e tecnologia digital podem juntos. Isso sob a coordenação do próprio compositor que confessou ouvir Bach e muito mais do que suas interessantes e inovadoras composições. Sinos badalando nas nossas cabeças, uma pianista vibrante interpretando uam música instingante e poemas que faziam ecos na alma, na sala. Não custa nada pedir...música erudita para todos...precisamos aplaudir com pés, mãos e com a alma.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Estrangeira em sua própria Casa do Saber?
A moça de vinte anos mora com os pais, trabalha em um mercadinho e todas as noites faz um deslocamento de 10 km para chegar a sua Universidade, localizada no ABC. Lá cursa graduação. E foi assistir aulas com um vestido de uma cor já escolhida para tendência no verão 2009, de mangas bem compostas e de tamanho compatível ao que costumo ver diariamente nas calçadas da Paulista.
Foi ofendida, xingada, ameaçada, perseguida. Fotografada por homens e mulheres, dentro de uma universidade e de estrangeira que era para além do ABC paulista, foi parar nos olhos de todos
.
Não se deu outra saída para o caso do que removê-la para casa, com escolta policial e vestida com um jaleco de um dos professores. Refleti que ela foi feita estrangeira em sua própria casa alugada, pagante de um curso superior.
E isso me fez lembrar do saudoso Jacques Derrida. Derrida e Duformantelle escreveram sobre a Hospitalidade. Ele descreve neste livrinho que o estrangeiro (hostis) é recebido como hóspede ou como inimigo. E persegue uma linha etimológica e de similaridade entre as palavras: hospitalidade, hostilidade e inventa a palavra hostipitalidade.
A moça revelou em entrevista que ao chegar em casa não conseguiu falar nada para o pai. Temia a palavra que o pai diria sobre sua experiência de um dia de estrangeira na sua casa do saber, a universidade.
E Derrida defende que as "pessoas deslocadas, os exilados, os deportados, os expulsos,os desenraizados, os nômades, têm em comum dois suspiros, duas nostalgias: seus mortos e sua língua" (2003, p. 79). Desde Freud já não é misterioso entender do que é capaz uma massa universitária ou torcida enlouquecida de futebol. Natural demais não ter palavras para descrever a barbárie ao pai. Lamentável demais ter enfrentado jovens enfurecidos com o direito dela de ir e vir vestindo as cores da tendência internacional da moda.
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