UTOPIAS PARTIDAS E DILACERADAS...FOI TUDO O QUE RESTOU...
A imagem mais forte que vou guardar do governo Lula é a ida e volta do Vice-Presidente José Alencar ao Hospital Sírio-Libanês. Moro na vizinhança do hospital do Staff do Presidente.
Na última passagem pelo hospital o vice disse que quando um tratamento revolucionário não oferece êxito é preciso voltar aos modos tradicionais. Vale ressaltar que falava da saúde dele e de sua luta contra o câncer. Mais que poderia ser uma boa metáfora para Governo Lula...
Aqui na Bela Vista, bairro onde o Vice Alencar se hospeda para tratamentos de sua saúde se leva pelo menos seis meses para conseguir uma consulta oftalmológica especializada...isso para quem usa o SUS.
O Governo Lula foi se deslocando para mim de uma esperança revolucionária a opção pelas alianças com velhas raposas da política brasileira, como o Sarney. E a decretação de inimigos para aliados antigos como Fernando Gabeira e Marina Silva.
Não sei que resultados teremos nas urnas de todos estes anos de Lula. A população paulista recentemente preferiu eleger o Kassab, do partido antigamente denominado PFL. A equipe de marketeiros ainda fez insinuações de que ele seria isso e aquilo e nada pegou. Ela pediu desculpas, disse que desconhecia as insinuações e que logo ela não concordaria nunca em veiculação de tais insinuações preconceituosas...mas...qual o que...perdeu para o cara do DEM.
Indago as razões para a escolha de um hospital particular para cuidar da saúde da equipe de Lula. O governo não investiu suficiente em Ciência e Tecnologia e o Sistema Único de Saúde não consegue oferecer ao cidadão Alencar um tratamento inovador e eficaz de recuperação de seu estado de saúde? Será que na educação melhorou?
Uma universidade paulista distribuiu bolsas para moradores de uma grande favela e pratica uma administração caótica e implicando no não pagamento dos salários dos professores. Em julho o SINPRO/SP (Sindicato dos Professores) foi ao MEC e ainda nada foi feito. Assim fica complicado formar mentes capazes de criar soluções para os maiores problemas sociais brasileiros. De que lado está posicionado o MEC? Do lado dos professores que não recebem seus salários? Do lado de uma Instituição particular de Ensino Superior e que não paga salários? Que Ensino Superior preconiza para a população das grandes favelas brasileiras e o que acontece na realidade?
Há uma confusão geral entre público e privado nestas mentes no poder em Brasília? Brasileiros que não podem utilizar os serviços de saúde privada devem fazer o que mesmo? Professores Universitários que não recebem seus salários e vão ao MEC, em Brasília, reclamar esperarão o que mesmo do Ministério da Educação? Caso estes professores adoeçam como poderão pagar plano de saúde, se não recebem os salários?
No tempo em saíamos com nossas bandeiras vermelhas e o Collor era eleito era mais fácil acreditar? Utopias partidas e dilaceradas...foi tudo o que restou?
domingo, 27 de setembro de 2009
domingo, 13 de setembro de 2009
Em algum sete de setembro passado
Eu fui ao Ipiranga no sete de setembro. E lá fiquei num devir-povo aproveitando desta casa bonita com jardim afrancesado e casarão aberto e gratuito ao povo. Imaginei que a melhor vantagem, neste dia, da monarquia ter ido embora seja este dia gratuito no Museu Paulista. E as pessoas se fotografavam nos jardins com uma dignidade de quem possui direito de tirar fotografia no nosso jardim.E ouvi uma criança de menos de sete anos dizer para a família: "então, nós vamos ver o show?"
Fui olhar neste bando de gente o quadro do Pedro Américo..tanto movimento de guerra e me chamou a atenção um homem carregando uma carroça e abismado com aquele movimento heróico..num ar que me pareceu semelhante aos meus colegas de visita..todos olhando para cima para aquele acontecimento...fotografei uns rostos assim...com o ar do homem da caroça e pintando por Américo.
O sete de setembro, neste templo comemorativo da independência, foi palco de um tudo..me impressionou uma mulher negra, elegantemente vestida de tons cor de rosa e alguém profissional a fotografou. Flertei um pouco com ela, mas ela estava muito concentrada na sua performance. Ela tinha a cabeça bem trançada, trancinha por toda a cabeça em tons combinativos com a roupa e seguia pelos jardins próximo da tumba do imperador e da imperatriz..essa tumba também é um lugar concorrido, neste dia sete, as pessoas olhavam encantadas..uma verdadeitra rainha de Congo, na melhor expressão da palavra. E vi dois pm's lá na tumba dos imperadores, estavam lá aproveitando o dia e olhavam com uma cara de quem nunca tinham visto o que restou da matéria do casal imperial.
Um sol desértico, conseqüências do que fizemos com o planeta e uma fila para entrar no museu..isso é muito interessante...
Quando eu já ia voltando para a Paulista, eis que cruzo com a marcha dos excluídos..muitos movimentos organizados..mst...negros organizados..pstu...e um carro de som e a cantoria: "caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não..." e eu segui dentro do ônibus cantarolando a canção de guerra ou hit de passeata...o povo seguia, em marcha, marcha dos excluídos ou os grupos organizados que gritavam em seu nome, num devir -povo que é melhor do que ficar parado. E em breve chegariam aos jardins imperiais...mais de 180 anos depois de um outro suposto grito do imperador...e o que foi a república para todos os nossos antepassados e para todos os que passaram hoje por este pedaço da história?
Eu, enquanto brasileira, me sinto mais feliz pelo fim da monárquia do que pelo fato de sermos uma república de senadores corruptos ou parte dominada de um capitalismo internacional, que como conversava com meu colega de ônibus este povo precisa ir à ruas para protestar, pois segundo o que ele me falou...rico não gosta de pobre...mas diante do abatimento de alguns manifestantes com o calor..caberia uma pergunta: o que fazemos com este calor de deserto? O que ainda podemos fazer pelo planeta? Alguns se refugiavam uns sombras das árvores da Av. D. Pedro I e o ônibus rumou para a Paulista e eu chupei um picolé de graviola, nas calçadas dos grandes bancos da paulista...serão estes os palácios da república? O certo é que os guardas guardavam suas frentes...estes republicanos não foram fotografar as crinaças nos nosso jardins...são os excluídos de um belo dia de sol nos jardins de nossa casa imperial.
Fui olhar neste bando de gente o quadro do Pedro Américo..tanto movimento de guerra e me chamou a atenção um homem carregando uma carroça e abismado com aquele movimento heróico..num ar que me pareceu semelhante aos meus colegas de visita..todos olhando para cima para aquele acontecimento...fotografei uns rostos assim...com o ar do homem da caroça e pintando por Américo.
O sete de setembro, neste templo comemorativo da independência, foi palco de um tudo..me impressionou uma mulher negra, elegantemente vestida de tons cor de rosa e alguém profissional a fotografou. Flertei um pouco com ela, mas ela estava muito concentrada na sua performance. Ela tinha a cabeça bem trançada, trancinha por toda a cabeça em tons combinativos com a roupa e seguia pelos jardins próximo da tumba do imperador e da imperatriz..essa tumba também é um lugar concorrido, neste dia sete, as pessoas olhavam encantadas..uma verdadeitra rainha de Congo, na melhor expressão da palavra. E vi dois pm's lá na tumba dos imperadores, estavam lá aproveitando o dia e olhavam com uma cara de quem nunca tinham visto o que restou da matéria do casal imperial.
Um sol desértico, conseqüências do que fizemos com o planeta e uma fila para entrar no museu..isso é muito interessante...
Quando eu já ia voltando para a Paulista, eis que cruzo com a marcha dos excluídos..muitos movimentos organizados..mst...negros organizados..pstu...e um carro de som e a cantoria: "caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não..." e eu segui dentro do ônibus cantarolando a canção de guerra ou hit de passeata...o povo seguia, em marcha, marcha dos excluídos ou os grupos organizados que gritavam em seu nome, num devir -povo que é melhor do que ficar parado. E em breve chegariam aos jardins imperiais...mais de 180 anos depois de um outro suposto grito do imperador...e o que foi a república para todos os nossos antepassados e para todos os que passaram hoje por este pedaço da história?
Eu, enquanto brasileira, me sinto mais feliz pelo fim da monárquia do que pelo fato de sermos uma república de senadores corruptos ou parte dominada de um capitalismo internacional, que como conversava com meu colega de ônibus este povo precisa ir à ruas para protestar, pois segundo o que ele me falou...rico não gosta de pobre...mas diante do abatimento de alguns manifestantes com o calor..caberia uma pergunta: o que fazemos com este calor de deserto? O que ainda podemos fazer pelo planeta? Alguns se refugiavam uns sombras das árvores da Av. D. Pedro I e o ônibus rumou para a Paulista e eu chupei um picolé de graviola, nas calçadas dos grandes bancos da paulista...serão estes os palácios da república? O certo é que os guardas guardavam suas frentes...estes republicanos não foram fotografar as crinaças nos nosso jardins...são os excluídos de um belo dia de sol nos jardins de nossa casa imperial.
PEDRO, EU E OS GURIÚ DE CADA UM DE NOIS... TANTOS NOZES
Este texto foi publicado na Revista Literatura - Revista do escritor brasileiro, n.º 24, 2003. Importei para cá por ser elucidativa de minhas migrações
PEDRO, EU E OS GURIÚ DE CADA UM DE NOIS... TANTOS NOZES
Glória F. Freitas
Tendo suportado as ameaças de destruição da vida, ameaças de seca, ameaças de naufrágio e outras mais... tive a oportunidade de conversar com este guerreiro nordestino. Um nordestino capaz de rir de amarguras de seu passado e que me segredou uma maravilhosa história de luta pela sobrevivência. Atravessando lugares nunca caminhados, com seus filhos, crianças-esperanças de sua vida, procurava escapar, viver, sobreviver, seja lá o que fosse possível com seus filhos e sua mulher. Obteve sucesso como ele próprio nos dirá. Respirou, sentou para descansar do peso desta mesa (ou do que se coloca nesta mesa: esperanças que fracassam, ilusões que não se cumprem ou desesperanças diante de intransponíveis barreiras que a vida nos traz e estava pronto para as próximas lutas.
Escutemos Seu Pedro... e eu ... emocionados falando da vida (era só a vida dele?), da sobrevivência, nós dois, dois migrantes cearenses, parecidos com qualquer judeu errante?
Pedro: É isso aí, depois disso, depois que me casei eu vim embora para esse Guriú. Eu vimimbora para esse Guriú, eu vim para o Guriú, tinha três filhos: Francisco, Maria, que é mais velha que ele; e o Horácio, horácio não! Era o Luís, (engasga), este tá lá no Paraná. O Luís vinha com três meses de idade e os outros dois já estavam maiorzim e aí fui, cheguei em Camocim, vinha outro amigo meu, que é sobrinho meu, e também com a família. Agora ele queria vir pru Guriú e eu queria ficar em Camocim, entonce aí, eu fiquei lá e ele veio pra aqui e pegou a trabalhar aqui com o finado Caboclinho, e eu fiquei lá. E lá, nóis, eu e um irmão meu inventamo de trabalha no Remédio, um lugar que tinha lá aonde e a gente trabalhou no carnaubal, nóis fomo trabalha lá. Daí de Camocim, eu levei dois filhos em cima de uma mesa, o Francisco e a Maria, em cima de uma mesa e eu com ela na cabeça assim, agarrado nos pés da mesa, e andei sete léguas! Sete léguas!
Eu comento: já pensou!?
Pedro: Levei para lá, passei lá um ano, é... , quando foi...
Eu: É praia também Remédios?
Pedro: É praia!
Eu: Fica para o lado de onde?
Pedro: Fica de Camocim para baixo, sete léguas, na beira da praia...
Eu: Para o lado de Bitupitá?
Pedro: E entre Bitupitá e Macéio. Entonce, aí, de lá pra cá, eu passei um ano lá e foi o tempo que não produziu mais nada e eu vimimbora, trazendo os meninos, novamente na mesma mesa. (Dá gargalhadas)
Eu: Na mesma mesa? (Também dou gargalhadas)
Pedro: Na mesma mesa. A mulher com um minino no quarto, com os bagulhos (risos), carregando as coisas e eu com a mesa na cabeça, carregando umas coisas mais também.
Eu: Ainda tem essa mesa?
Pedro: Eu acho que ela ainda existe por aí (e cai na gargalhada)
(muitas gargalhadas, minha e dele)
Eu: A mesa é histórica, não é...
Pedro: É
Eu: Serviu de Guarda chuva para...
Pedro: Eles sentavam em riba da mesa, guardando as coisas em riba da mesa, uma na frente outro atrás, e eu com a mesa na cabeça, já pensou? A gente sofreu muito!
Eu: Muito
Pedro: Aí depois de lá foi que eu vim para o Guriú. E cheguei aqui e continuei a trabalhar, graças a Deus, tive sorte e ganhei muita coisa. Ainda cheguei o ponto de pissuir cem gados, botei uns comerciozim, é, umas bodeguinhas, por ali; mas sofri muito nesta época, eu passei uma alagação no mar, uma tarde todinha até a noite...
Enquanto ouvinte, apaixonada, preferia ter escutado apenas que as partes duras da vida tinham ficado para trás... mas quem suportaria viver sem a presença conselheira das ameaças de morte, desintegração, perigo de sucumbir? E mais ainda quem suportaria viver sem ser possível relatar as dores do viver? Este nosso náufrago parece querer dizer que navegar é preciso, tem-se que chegar em Camocim e antes do natal...mas parece que sofrer parece fazer parte importante do show. E nem se relata a quaresma, mas o nascimento do cristo.
Dores semelhantes de todos os habitantes-migrantes que este planeta já produziu, reouvindo Seu Pedro, que até mesmo já nos deixou (mas suas palavras ficaram), faço relembra outro edificador, Freud. E Freud escreve:
20 Maresfield Gardens Londres, N. W. 316.11. 1938
Ao Redator-Chefe de Time and Tide.
Cheguei a Viena como uma criança de quatro anos de idade, vindo de uma cidadezinha da Morávia. Após 78 anos de trabalho assíduo, tive de abandonar meu lar, vi dissolvida a Sociedade Científica que fundei, destruídas nossas instituições, tomada pelos invasores nossa Impressora (‘Verlag’), os livros que publiquei confiscados ou reduzidos a bagaço, meus filhos expulsos de suas profissões. Não acha que deveria reservar as colunas de seu número especial para as manifestações de pessoas não judias, menos pessoalmente envolvidas do que eu próprio?
Com relação a isso, minha mente se apropria de um velho ditado francês:
Le bruit est pour le fat La plainte est pour le sot; L’honnête homme trompé S’en va et ne dit mot. Sinto-me profundamente abalado pela passagem de sua carta que reconhece ‘um certo crescimento do anti-semitismo mesmo neste país.’ Não deveria a atual perseguição dar origem antes a uma onda de simpatia neste país?
Respeitosamente seu, Sigm. Freud
(Da obra Anti-semitismo na Inglaterra, 1938)
Mas homens honestos e lutadores pelo direito à vida, antes de morrer falaram. Apesar das dores denunciam seus (e)feitos e os eternizaram. Portanto Pedro de Gúriu e Freud de Viena estão vivos. E nós, com nois ou nozes, que os escutamos ou lemos também. E como diz outro vivo, que canta Existimos ao que será que se destina...
***********************************
PEDRO, EU E OS GURIÚ DE CADA UM DE NOIS... TANTOS NOZES
Glória F. Freitas
Tendo suportado as ameaças de destruição da vida, ameaças de seca, ameaças de naufrágio e outras mais... tive a oportunidade de conversar com este guerreiro nordestino. Um nordestino capaz de rir de amarguras de seu passado e que me segredou uma maravilhosa história de luta pela sobrevivência. Atravessando lugares nunca caminhados, com seus filhos, crianças-esperanças de sua vida, procurava escapar, viver, sobreviver, seja lá o que fosse possível com seus filhos e sua mulher. Obteve sucesso como ele próprio nos dirá. Respirou, sentou para descansar do peso desta mesa (ou do que se coloca nesta mesa: esperanças que fracassam, ilusões que não se cumprem ou desesperanças diante de intransponíveis barreiras que a vida nos traz e estava pronto para as próximas lutas.
Escutemos Seu Pedro... e eu ... emocionados falando da vida (era só a vida dele?), da sobrevivência, nós dois, dois migrantes cearenses, parecidos com qualquer judeu errante?
Pedro: É isso aí, depois disso, depois que me casei eu vim embora para esse Guriú. Eu vimimbora para esse Guriú, eu vim para o Guriú, tinha três filhos: Francisco, Maria, que é mais velha que ele; e o Horácio, horácio não! Era o Luís, (engasga), este tá lá no Paraná. O Luís vinha com três meses de idade e os outros dois já estavam maiorzim e aí fui, cheguei em Camocim, vinha outro amigo meu, que é sobrinho meu, e também com a família. Agora ele queria vir pru Guriú e eu queria ficar em Camocim, entonce aí, eu fiquei lá e ele veio pra aqui e pegou a trabalhar aqui com o finado Caboclinho, e eu fiquei lá. E lá, nóis, eu e um irmão meu inventamo de trabalha no Remédio, um lugar que tinha lá aonde e a gente trabalhou no carnaubal, nóis fomo trabalha lá. Daí de Camocim, eu levei dois filhos em cima de uma mesa, o Francisco e a Maria, em cima de uma mesa e eu com ela na cabeça assim, agarrado nos pés da mesa, e andei sete léguas! Sete léguas!
Eu comento: já pensou!?
Pedro: Levei para lá, passei lá um ano, é... , quando foi...
Eu: É praia também Remédios?
Pedro: É praia!
Eu: Fica para o lado de onde?
Pedro: Fica de Camocim para baixo, sete léguas, na beira da praia...
Eu: Para o lado de Bitupitá?
Pedro: E entre Bitupitá e Macéio. Entonce, aí, de lá pra cá, eu passei um ano lá e foi o tempo que não produziu mais nada e eu vimimbora, trazendo os meninos, novamente na mesma mesa. (Dá gargalhadas)
Eu: Na mesma mesa? (Também dou gargalhadas)
Pedro: Na mesma mesa. A mulher com um minino no quarto, com os bagulhos (risos), carregando as coisas e eu com a mesa na cabeça, carregando umas coisas mais também.
Eu: Ainda tem essa mesa?
Pedro: Eu acho que ela ainda existe por aí (e cai na gargalhada)
(muitas gargalhadas, minha e dele)
Eu: A mesa é histórica, não é...
Pedro: É
Eu: Serviu de Guarda chuva para...
Pedro: Eles sentavam em riba da mesa, guardando as coisas em riba da mesa, uma na frente outro atrás, e eu com a mesa na cabeça, já pensou? A gente sofreu muito!
Eu: Muito
Pedro: Aí depois de lá foi que eu vim para o Guriú. E cheguei aqui e continuei a trabalhar, graças a Deus, tive sorte e ganhei muita coisa. Ainda cheguei o ponto de pissuir cem gados, botei uns comerciozim, é, umas bodeguinhas, por ali; mas sofri muito nesta época, eu passei uma alagação no mar, uma tarde todinha até a noite...
Enquanto ouvinte, apaixonada, preferia ter escutado apenas que as partes duras da vida tinham ficado para trás... mas quem suportaria viver sem a presença conselheira das ameaças de morte, desintegração, perigo de sucumbir? E mais ainda quem suportaria viver sem ser possível relatar as dores do viver? Este nosso náufrago parece querer dizer que navegar é preciso, tem-se que chegar em Camocim e antes do natal...mas parece que sofrer parece fazer parte importante do show. E nem se relata a quaresma, mas o nascimento do cristo.
Dores semelhantes de todos os habitantes-migrantes que este planeta já produziu, reouvindo Seu Pedro, que até mesmo já nos deixou (mas suas palavras ficaram), faço relembra outro edificador, Freud. E Freud escreve:
20 Maresfield Gardens Londres, N. W. 316.11. 1938
Ao Redator-Chefe de Time and Tide.
Cheguei a Viena como uma criança de quatro anos de idade, vindo de uma cidadezinha da Morávia. Após 78 anos de trabalho assíduo, tive de abandonar meu lar, vi dissolvida a Sociedade Científica que fundei, destruídas nossas instituições, tomada pelos invasores nossa Impressora (‘Verlag’), os livros que publiquei confiscados ou reduzidos a bagaço, meus filhos expulsos de suas profissões. Não acha que deveria reservar as colunas de seu número especial para as manifestações de pessoas não judias, menos pessoalmente envolvidas do que eu próprio?
Com relação a isso, minha mente se apropria de um velho ditado francês:
Le bruit est pour le fat La plainte est pour le sot; L’honnête homme trompé S’en va et ne dit mot. Sinto-me profundamente abalado pela passagem de sua carta que reconhece ‘um certo crescimento do anti-semitismo mesmo neste país.’ Não deveria a atual perseguição dar origem antes a uma onda de simpatia neste país?
Respeitosamente seu, Sigm. Freud
(Da obra Anti-semitismo na Inglaterra, 1938)
Mas homens honestos e lutadores pelo direito à vida, antes de morrer falaram. Apesar das dores denunciam seus (e)feitos e os eternizaram. Portanto Pedro de Gúriu e Freud de Viena estão vivos. E nós, com nois ou nozes, que os escutamos ou lemos também. E como diz outro vivo, que canta Existimos ao que será que se destina...
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sábado, 12 de setembro de 2009
Começando com(o) Pessoa
Eis que tudo começa...
Quero começar a escrever lembrando que ao procurar me definir...lembro de Pessoa e descubro que não sou nada...mas tenho meus sonhos no mundo....sonhos que roubam sonos...sonhos irrecuperáveis...sonhos que se realizam e compro um bombom...como chocolate e nunca se foi o ser menina...nina...ninar...niña...niños...
Eis a poesia:
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
Quero começar a escrever lembrando que ao procurar me definir...lembro de Pessoa e descubro que não sou nada...mas tenho meus sonhos no mundo....sonhos que roubam sonos...sonhos irrecuperáveis...sonhos que se realizam e compro um bombom...como chocolate e nunca se foi o ser menina...nina...ninar...niña...niños...
Eis a poesia:
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
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