domingo, 18 de outubro de 2009

O Percevejo russo de Maiakóvski

Eu acabo de ler a Comédia fantástica em nove cenas de Vladímir Maiakóvski. A tradução é de Luiz Antonio Martinez Corrêa e o cotejo com o original russo e posfácio é de Boris Schnaiderman. A Editora 34 publicou recentemente.
O livro-peça é muito engraçado e o próprio Maiakóvski cometa em uma apresentação da peça que a inspiração veio de um amontoado de fatos que foram narrando para ele e que se metamorfosearam em hilariante peça.
O personagem que se chama Prissípkin é descongelado 50 anos após um incêndio no dia trágico-cômico de seu casamento. Prissipkin fica demasiadamente em pânico ao saber que foi descongelado pelos efeitos dos cientistas. Diz que vai provar sua identidade, mostrar documentos e seus pagamentos em dia. Inclusive sua contribuição aos fundos de defesa revolucionária e sua aflição vai piorando ao descobrir que congelado por 50 anos é inadimplente do pagamento de suas taxas. E lá aparece um percevejo para complicar sua delicada situação com a cultura e poderes instituídos nos tempos emque hibernou congelado.
Ressalto que há ainda,acompanhando o texto, uma escrita do autor sobre a peça. Ele escreveu um ano antes do suicídio.
Essa tradução brasileira é fruto do desejo de Luiz Antonio Martinez Corrêa. Conseguiu encenar a peça e contar com a trilha musical de Caetano Veloso. Houve um debate ao fim de uma apresentação do espetáculo no Rio de Janeiro.
E Boris Schnaiderman narra no posfácio que Caetano questiona a fala de Prestes sobre a exaltação ao poeta da revolução e que caminhava em uníssono com o sistema vigente. Comenta que vai avisar ao pai que esteve com Prestes naquele debate, que ele é admirável e diz que não sabe como Prestes consegue ter tanta certeza de fatos que são tão duvidosos. Uma delas é possível apontar: como julgar alguém como o poeta da revolução e esquecer que foi declarado como imcomprensível paraas massas?
Enfim ontem,hoje e sempre haverão os patrulhamentos dos poderes e dos poderosos? Sejam revolucionários ou não.
Voltando aoa Caetano, escreveu nesta trilha sonora a bela música...


Ressucita-me

(Gal Cos




Talvez



Quem sabe um dia...



Por uma alameda do zoológico ela também chegará



Ela que também amava os animais



Entrará sorridente assim como está



Na foto sobre a mesa



Ela é tão bonita



Ela tão bonita que na certa



Eles a ressucitarão



O século trinta vencerá



O coração destroçado já



Pelas mesquinharias



Agora vamos alcançar



Tudo o que não podemos achar na vida



Como estrela das noites inumeráveis



Ressucita-me ainda que mais não seja



Porque sou poeta



Ressucita-me lutando contra as misérias do cotidiano



Ressucita-me por isso



Ressucita-me quero acabar de viver o que me cabe, minha vida



Para que não mais existam



Amores servis



Ressucita-me pra que ninguém mais tenha



De sacrificar-se por uma casa, um buraco



Ressucita-me para que a partir de hoje







A família se transforme



E o pai... seja pelo menos o universo



E a mãe... seja no mínimo a Terra, a Terra, a Terra

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Humorosa sala de espera, solo acompanhado com Ângela Sassine

Eu fui assistir ao estreante espetáculo Sintoma, solo de Ângela Sassine e dei muita gargalhada, em meio de uma grande platéia mais calada. A atriz é um batalhão, discordo que esteja solo no palco. Apresenta uma desenvoltura corporal. Dança e canta um tango para Teresa. A excelente música de Piazolla, pianíssima companhia na sala de espera de um analista onde tudo se dá. Há também tango. Músicas muito bem escolhidas.
A atriz é cria do Teatro Escola Macunaíma. E Atuou em "O Casamento Suspeitoso" de Ariano Suassuna - dir. José Nelson Freitas, "Sai da Frente que atrás vem gente" de Alberto de Abreu - dir. Rubens Brito, "Filhos do Medo" de Roniwalter Jatobá, adaptação de Benê Rodrigues - dir. Ednaldo Freire, "De Pernas Pro Ar" de Miguel Angelo Filiage - dir. Rubens Brito, "Assim nos Conta Tchekhov" - dir Vitor Mendez, "Teresa D'Ávila" de Deonísio da Silva - dir. José Nelson Freitas, "O Genro de Muitas Sogras" de Arthur Azevedo - dir.Cacá Amaral.
A Cia. Luis Louis oferece ao paulistano no Teatro Artur Azevedo, na Mooca, uma peça reflexiva, poética, humorosa (algo que mistura humor e afeto), com bonito figurino, atriz primorosa e um texto tão belo. Há expressões ditas no roteiro que dá vontade de anotar e levar para casa. O espetáculo "Sintoma" é dirigido por Silvana Abreu.


E recebi o seguinte email de Silvana Abreu:
Olá Glória!




Quero agradecer pelo carinho que você dedicou ao nosso trabalho. É gratificante saber que ele te divertiu e te emocionou. Isso é um presente para todas as pessoas da equipe que trabalham duro para estar próximas do coração do público.

Tomei a liberdade de usar trechos do teu depoimento para ilustrar nosso site www.cialuislouis.com.br e www.silvanaabreu.com espero que você fique feliz.

Obrigada!

E se puder, divulgue para seus conhecidos!

E sinta-se à vontade para retornar se desejar, você será nossa convidada.



Abraços,

sábado, 10 de outubro de 2009

É nem...é...nem...ENEM...nem é...é?

      Eu senti falta de um pedido de desculpas...com lágrimas...do Ministro da Educação do Brasil. Nestes anos em que dedico minha vida à educação já vi, ouvi tantos absurdos...este carinha pedir desculpas pelos transtornos causados pelo roubo de uma prova é já a cara do descaso geral que educação, educadores e educandos passam no país.
      Ele pediu desculpas pelos transtornos aos candidatos ao ENEM e o que essa nação poderia ter feito pela formação deste jovem funcionário tercerizado de uma gráfica? O que não foi oferecido nos seus anos de escolaridade e que somou aos elementos que o colocaram atrás das grades por roubar uma prova destinada aos alunos do ensino médio em todo o território nacional.
      Andam falando que o sistema de segurança falhou geral e que diante disso as novas provas receberão reforços de todos os poderes possíveis.
       Em fevereiro de 2007 eu estive hospedada em um pensionato na zona leste de São Paulo. Lá estava cheio de mocinhas vindas do interior e do litoral paulista. Elas me contaram fatos interessantes,enquanto esperavam o primeiro dia de aula na universidade pública paulista em que tinham sido aprovadas no vestibular. Revelaram que sempre estudaram em escolas particulares e as melhores de suas cidades. Na reta final migraram para escolas públicas e  tentaram o vestibular representando os alunos de escolas públicas paulistas.
       Lembrei delas chegando para o primeiro dia de aula na universidade e acompanhadas de papai e mãmãe e parecia que vinham para um acampamento de adolescentes. Os pais davam mil e umas dicas e recomendações. E o arsenal alimentar que as meninas traziam... Tudo o que mocinhas não podem deixar de consumir. Muito produto alimenar indistrializado. Enfim eu vi a classe média paulista trazer suas meninas para uma universidade pública na periferia da metropóle.
        E para a classe média que chega às vagas públicas da universidade que o rapaz devia pedir desculpas? Ele afirmou na TV que queria só mostrar a fragilidade do processo. E quem da classe média devia pedir desculpas as péssimas condições de trabalho dos jovens tercerizados?
         E  nem...é...nem...ENEM...