domingo, 18 de abril de 2010

É tudo verdade? (It's all true 2010)

O 15.º Festival Internacional de Documentários movimentou a semana em São Paulo. Os filmes foram exibidos na Cinamateca, CCBB, Espaço Unibanco, Reserva Cultural, Cinusp e Cinemark Eldorado.
Ocorreu uma retrospectiva de Alain Cavalier. Eu vi o filme "Esta secretaria eletrônica não grava recados", um filme quase mudo e de alguém fechando portas para o mundo, deforma bem plástica...pintando de preto exteriores e janelas de um apartamento.
Eu amei o filme "Os pais da Praça de Maio". Joaquin Daglio teve a magnífica ideia de realizar entrevistas, expedições e um fabuloso encontro do grupo. Eram dez entrevistados e falavam sobre os seus filhos e filhas desaparecidos, as consequências de serem obrigados ao silêncio e a oportunidade de, simbolicamente, enterrar seus filhos insepultos, através de narrativas. Comovente, encantador e mobilizador...Confesso que andei pela Paulista e olhando os idosos que eu cruzei e vendo neles, os pais da Praça de Maio. As histórias de vida que emergem no filme são singulares e tão semelhantes. Lembrei que também entrevistei as dramistas de Guriú isodamente e em grupo. Os depoimentos individuais ganham espaço para um compartilhamento grupal. Quando se olha ao redor, foi produzido um grupo novo com ligação mantida no falar sobre suas histórias de vida. Falar, falar, falar...este santo remédio inventado por Freud.
Ainda assisti o interessante "Sobre Rios e Córregos", que inspira saudade dos rios que passavam por baixo do Vale do Anhangabaú. Entendendo o passado é possível entender o caos urbano paulistano quando as águas voltam ou teimam em insistir em resgatar seu lugar original.
E por falar em águas, Bodanzki, amei o "No meio do Rio, Entre as Árvores", repleto de palavras dos riberinhos da amazônia, de suas cores, de seus focos. A ideia muito sensacional da equipe foi oferecer oficinas para algumas comunidades da amazônia e colocar uma filmadora disponível para cenas cotidianas das comunidades que lutam para sobreviver ao descaso de quase tudo e todos. Encantador!!!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

AS MARIPOSAS, INÊS, IRACEMA, GUIOMAR, MATHILDE E TANTAS CRIAÇÕES DO CENTENÁRIO ADONIRAN BARBOSA

Adoniran Barbosa é um centenário. Interessante saber que ele atravessou o século XX e deu para o Brasil a possibilidade de descobrir uma cidade não apenas sinônimo de pressa, trabalho, trânsito, poluição.


A São Paulo cantada em verso e prosa é uma sucessão fantástica de narrações de mulheres que dizem que vão comprar o pavio pru lampião e demora muita...anoiteceu, ele foi pra rua como louco, procurou na central, no hospital e no xadrez, andou a cidade toda e nada...e no chão, pertinho do fogão, encontra um bilhetinho de Inês: “pode apagar o fogão, Manê, que eu não volto mais!”. Ou Alguém que vem pedir abrigo e conta que o seu barraco pegou fogo. E conta a infortunada história. Ou ainda Isabel chorando sem parar e vendo o barraco queimar, com dor e sofrer. Justo aquele barraco onde foram tão felizes!

Quem poderia falar melhor e nos fazer percorrer as ruas de Sampa, entrar nas malocas, pegar o último trem, aquele das onze. Quem nos esclareceria melhor o doce encanto da malandragem paulistana e o samba paulista tão associado a essa figura que respirava dramaturgia para encenar no cinema, na rádio, na televisão e na hora de compor as suas preciosidades.

São os prédios altos que demoliram as malocas dos Jocas, Matogrossos e outros e que habitavam Brás, Bixiga e outras paradas.

É um repúdio sonoro às atrocidades sociais contemporâneas de Adoniran e que vemos na megametrôpolis, quando chove ou quando chegam para limpar os espaços públicos, transmutados em casa para os joças, matogrossos atuais. Ali onde um colchão velho é um quarto de dormir e jatos de água de reuso são jogados nas calçadas. E Adoniran dizia: “A minha maloca ofereço aos vagabundos que não tem onde dormir”.

É lúdico, é crítica social, é genial, é imortal. Este jeito de viver e dizer “olha nois aqui outra veiz”. E se são convidados por Arnesto para uma festa que não aconteceu, dizem que não vão outra vez.

E aquele samba no Bixiga no domingo e com baita de uma briga. E eles estranhos no lugar. E eles foram não para brigar. Afinal foram lá para comer. E Sargento falar que a situação está grave e ia chamar ambulância e que os mais pior vão pras clinicas.

Essa cidade do século XX cuidadosamente registrada por Adoniran nos ficou de legado e se propagou nas comunidades das escolas de samba, nos sambistas, nos rappper’s e no movimento de poesia da Cooperifa, em que poetas contemporâneos e reunidos em comunidades na periferia paulistana recitam suas dores,cores e flores.