Adoniran Barbosa é um centenário. Interessante saber que ele atravessou o século XX e deu para o Brasil a possibilidade de descobrir uma cidade não apenas sinônimo de pressa, trabalho, trânsito, poluição.
A São Paulo cantada em verso e prosa é uma sucessão fantástica de narrações de mulheres que dizem que vão comprar o pavio pru lampião e demora muita...anoiteceu, ele foi pra rua como louco, procurou na central, no hospital e no xadrez, andou a cidade toda e nada...e no chão, pertinho do fogão, encontra um bilhetinho de Inês: “pode apagar o fogão, Manê, que eu não volto mais!”. Ou Alguém que vem pedir abrigo e conta que o seu barraco pegou fogo. E conta a infortunada história. Ou ainda Isabel chorando sem parar e vendo o barraco queimar, com dor e sofrer. Justo aquele barraco onde foram tão felizes!
Quem poderia falar melhor e nos fazer percorrer as ruas de Sampa, entrar nas malocas, pegar o último trem, aquele das onze. Quem nos esclareceria melhor o doce encanto da malandragem paulistana e o samba paulista tão associado a essa figura que respirava dramaturgia para encenar no cinema, na rádio, na televisão e na hora de compor as suas preciosidades.
São os prédios altos que demoliram as malocas dos Jocas, Matogrossos e outros e que habitavam Brás, Bixiga e outras paradas.
É um repúdio sonoro às atrocidades sociais contemporâneas de Adoniran e que vemos na megametrôpolis, quando chove ou quando chegam para limpar os espaços públicos, transmutados em casa para os joças, matogrossos atuais. Ali onde um colchão velho é um quarto de dormir e jatos de água de reuso são jogados nas calçadas. E Adoniran dizia: “A minha maloca ofereço aos vagabundos que não tem onde dormir”.
É lúdico, é crítica social, é genial, é imortal. Este jeito de viver e dizer “olha nois aqui outra veiz”. E se são convidados por Arnesto para uma festa que não aconteceu, dizem que não vão outra vez.
E aquele samba no Bixiga no domingo e com baita de uma briga. E eles estranhos no lugar. E eles foram não para brigar. Afinal foram lá para comer. E Sargento falar que a situação está grave e ia chamar ambulância e que os mais pior vão pras clinicas.
Essa cidade do século XX cuidadosamente registrada por Adoniran nos ficou de legado e se propagou nas comunidades das escolas de samba, nos sambistas, nos rappper’s e no movimento de poesia da Cooperifa, em que poetas contemporâneos e reunidos em comunidades na periferia paulistana recitam suas dores,cores e flores.
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