Este texto foi publicado na Revista Literatura - Revista do escritor brasileiro, n.º 24, 2003. Importei para cá por ser elucidativa de minhas migrações
PEDRO, EU E OS GURIÚ DE CADA UM DE NOIS... TANTOS NOZES
Glória F. Freitas
Tendo suportado as ameaças de destruição da vida, ameaças de seca, ameaças de naufrágio e outras mais... tive a oportunidade de conversar com este guerreiro nordestino. Um nordestino capaz de rir de amarguras de seu passado e que me segredou uma maravilhosa história de luta pela sobrevivência. Atravessando lugares nunca caminhados, com seus filhos, crianças-esperanças de sua vida, procurava escapar, viver, sobreviver, seja lá o que fosse possível com seus filhos e sua mulher. Obteve sucesso como ele próprio nos dirá. Respirou, sentou para descansar do peso desta mesa (ou do que se coloca nesta mesa: esperanças que fracassam, ilusões que não se cumprem ou desesperanças diante de intransponíveis barreiras que a vida nos traz e estava pronto para as próximas lutas.
Escutemos Seu Pedro... e eu ... emocionados falando da vida (era só a vida dele?), da sobrevivência, nós dois, dois migrantes cearenses, parecidos com qualquer judeu errante?
Pedro: É isso aí, depois disso, depois que me casei eu vim embora para esse Guriú. Eu vimimbora para esse Guriú, eu vim para o Guriú, tinha três filhos: Francisco, Maria, que é mais velha que ele; e o Horácio, horácio não! Era o Luís, (engasga), este tá lá no Paraná. O Luís vinha com três meses de idade e os outros dois já estavam maiorzim e aí fui, cheguei em Camocim, vinha outro amigo meu, que é sobrinho meu, e também com a família. Agora ele queria vir pru Guriú e eu queria ficar em Camocim, entonce aí, eu fiquei lá e ele veio pra aqui e pegou a trabalhar aqui com o finado Caboclinho, e eu fiquei lá. E lá, nóis, eu e um irmão meu inventamo de trabalha no Remédio, um lugar que tinha lá aonde e a gente trabalhou no carnaubal, nóis fomo trabalha lá. Daí de Camocim, eu levei dois filhos em cima de uma mesa, o Francisco e a Maria, em cima de uma mesa e eu com ela na cabeça assim, agarrado nos pés da mesa, e andei sete léguas! Sete léguas!
Eu comento: já pensou!?
Pedro: Levei para lá, passei lá um ano, é... , quando foi...
Eu: É praia também Remédios?
Pedro: É praia!
Eu: Fica para o lado de onde?
Pedro: Fica de Camocim para baixo, sete léguas, na beira da praia...
Eu: Para o lado de Bitupitá?
Pedro: E entre Bitupitá e Macéio. Entonce, aí, de lá pra cá, eu passei um ano lá e foi o tempo que não produziu mais nada e eu vimimbora, trazendo os meninos, novamente na mesma mesa. (Dá gargalhadas)
Eu: Na mesma mesa? (Também dou gargalhadas)
Pedro: Na mesma mesa. A mulher com um minino no quarto, com os bagulhos (risos), carregando as coisas e eu com a mesa na cabeça, carregando umas coisas mais também.
Eu: Ainda tem essa mesa?
Pedro: Eu acho que ela ainda existe por aí (e cai na gargalhada)
(muitas gargalhadas, minha e dele)
Eu: A mesa é histórica, não é...
Pedro: É
Eu: Serviu de Guarda chuva para...
Pedro: Eles sentavam em riba da mesa, guardando as coisas em riba da mesa, uma na frente outro atrás, e eu com a mesa na cabeça, já pensou? A gente sofreu muito!
Eu: Muito
Pedro: Aí depois de lá foi que eu vim para o Guriú. E cheguei aqui e continuei a trabalhar, graças a Deus, tive sorte e ganhei muita coisa. Ainda cheguei o ponto de pissuir cem gados, botei uns comerciozim, é, umas bodeguinhas, por ali; mas sofri muito nesta época, eu passei uma alagação no mar, uma tarde todinha até a noite...
Enquanto ouvinte, apaixonada, preferia ter escutado apenas que as partes duras da vida tinham ficado para trás... mas quem suportaria viver sem a presença conselheira das ameaças de morte, desintegração, perigo de sucumbir? E mais ainda quem suportaria viver sem ser possível relatar as dores do viver? Este nosso náufrago parece querer dizer que navegar é preciso, tem-se que chegar em Camocim e antes do natal...mas parece que sofrer parece fazer parte importante do show. E nem se relata a quaresma, mas o nascimento do cristo.
Dores semelhantes de todos os habitantes-migrantes que este planeta já produziu, reouvindo Seu Pedro, que até mesmo já nos deixou (mas suas palavras ficaram), faço relembra outro edificador, Freud. E Freud escreve:
20 Maresfield Gardens Londres, N. W. 316.11. 1938
Ao Redator-Chefe de Time and Tide.
Cheguei a Viena como uma criança de quatro anos de idade, vindo de uma cidadezinha da Morávia. Após 78 anos de trabalho assíduo, tive de abandonar meu lar, vi dissolvida a Sociedade Científica que fundei, destruídas nossas instituições, tomada pelos invasores nossa Impressora (‘Verlag’), os livros que publiquei confiscados ou reduzidos a bagaço, meus filhos expulsos de suas profissões. Não acha que deveria reservar as colunas de seu número especial para as manifestações de pessoas não judias, menos pessoalmente envolvidas do que eu próprio?
Com relação a isso, minha mente se apropria de um velho ditado francês:
Le bruit est pour le fat La plainte est pour le sot; L’honnête homme trompé S’en va et ne dit mot. Sinto-me profundamente abalado pela passagem de sua carta que reconhece ‘um certo crescimento do anti-semitismo mesmo neste país.’ Não deveria a atual perseguição dar origem antes a uma onda de simpatia neste país?
Respeitosamente seu, Sigm. Freud
(Da obra Anti-semitismo na Inglaterra, 1938)
Mas homens honestos e lutadores pelo direito à vida, antes de morrer falaram. Apesar das dores denunciam seus (e)feitos e os eternizaram. Portanto Pedro de Gúriu e Freud de Viena estão vivos. E nós, com nois ou nozes, que os escutamos ou lemos também. E como diz outro vivo, que canta Existimos ao que será que se destina...
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domingo, 13 de setembro de 2009
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