A moça de vinte anos mora com os pais, trabalha em um mercadinho e todas as noites faz um deslocamento de 10 km para chegar a sua Universidade, localizada no ABC. Lá cursa graduação. E foi assistir aulas com um vestido de uma cor já escolhida para tendência no verão 2009, de mangas bem compostas e de tamanho compatível ao que costumo ver diariamente nas calçadas da Paulista.
Foi ofendida, xingada, ameaçada, perseguida. Fotografada por homens e mulheres, dentro de uma universidade e de estrangeira que era para além do ABC paulista, foi parar nos olhos de todos
.
Não se deu outra saída para o caso do que removê-la para casa, com escolta policial e vestida com um jaleco de um dos professores. Refleti que ela foi feita estrangeira em sua própria casa alugada, pagante de um curso superior.
E isso me fez lembrar do saudoso Jacques Derrida. Derrida e Duformantelle escreveram sobre a Hospitalidade. Ele descreve neste livrinho que o estrangeiro (hostis) é recebido como hóspede ou como inimigo. E persegue uma linha etimológica e de similaridade entre as palavras: hospitalidade, hostilidade e inventa a palavra hostipitalidade.
A moça revelou em entrevista que ao chegar em casa não conseguiu falar nada para o pai. Temia a palavra que o pai diria sobre sua experiência de um dia de estrangeira na sua casa do saber, a universidade.
E Derrida defende que as "pessoas deslocadas, os exilados, os deportados, os expulsos,os desenraizados, os nômades, têm em comum dois suspiros, duas nostalgias: seus mortos e sua língua" (2003, p. 79). Desde Freud já não é misterioso entender do que é capaz uma massa universitária ou torcida enlouquecida de futebol. Natural demais não ter palavras para descrever a barbárie ao pai. Lamentável demais ter enfrentado jovens enfurecidos com o direito dela de ir e vir vestindo as cores da tendência internacional da moda.

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